Aconteceu a quase toda a gente.
Estás ao jantar.
Alguém fala sobre comprar uma bicicleta.
No dia seguinte aparecem anúncios de bicicletas no Instagram.
Conclusão imediata:
"O telemóvel estava a ouvir."
É possível uma aplicação aceder ao microfone quando tem permissão.
Mas para explicar a maioria destes fenómenos existe uma hipótese muito mais banal:
as plataformas já sabem imenso sobre nós sem precisarem de ouvir a conversa.
Deixamos centenas de sinais digitais
Ao longo do dia fazemos coisas como:
- pesquisas;
- visitas a sites;
- gostos;
- compras;
- localização aproximada;
- visualização de vídeos;
- utilização de aplicações;
- interação com anúncios.
Cada sinal isolado diz pouco.
Juntos podem construir um perfil bastante detalhado.
E também convivemos com outras pessoas
Imagina que a tua companheira pesquisa bicicletas durante três dias.
Vivem na mesma casa.
Usam frequentemente a mesma rede.
Deslocam-se juntos.
Interagem nas redes sociais.
Um sistema publicitário pode concluir que vocês pertencem a contextos relacionados sem precisar de gravar uma conversa.
Depois aparece-te um anúncio.
Tu lembras-te imediatamente da conversa da noite anterior.
Não te lembras das outras 200 conversas que não produziram anúncio nenhum.
Também existe viés de atenção
Compraste um carro vermelho.
De repente parece que existem carros vermelhos em todo o lado.
Eles já estavam lá.
Tu é que começaste a reparar.
Com publicidade pode acontecer algo semelhante.
Depois de falar sobre bicicletas, um anúncio de bicicletas torna-se memorável.
Um anúncio de detergente que apareceu imediatamente antes é esquecido.
Isso significa que as apps nunca usam o microfone?
Não.
Aplicações podem pedir acesso ao microfone por motivos legítimos:
- chamadas;
- mensagens de voz;
- gravação de vídeo;
- reconhecimento de voz.
E um software malicioso pode abusar de permissões.
É precisamente por isso que os sistemas modernos mostram indicadores quando câmara ou microfone estão ativos.
Vale a pena rever permissões regularmente.
O assustador é que nem precisam
Esta é a parte mais interessante.
O ecossistema publicitário consegue fazer inferências surpreendentes a partir de comportamento digital.
Não precisa necessariamente de ouvir:
"Quero viajar para Roma."
Talvez já saiba que:
- pesquisaste voos;
- viste um Reel sobre Itália;
- abriste um artigo sobre Roma;
- visitaste uma plataforma de reservas;
- alguém próximo está a fazer pesquisas semelhantes.
A publicidade parece telepatia.
Mas frequentemente é estatística.
A pergunta certa talvez não seja:
"O meu telefone está a ouvir-me?"
É:
"Que quantidade de informação sobre mim já existe sem ser preciso ouvir nada?"
E essa resposta é provavelmente muito mais desconfortável.
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